Publicada originalmente por ConJur
Por Cristiane Conde Chmatalik

 

 

“A melhor maneira de prever o futuro é inventá-lo”
Alan Kay – PARC (Laboratório de Inovação da Xerox)

 

Administrar a Justiça tem sido tarefa realizada por juízes e servidores nem sempre preparados para gerenciar um organismo complexo que se assemelha a uma grande empresa. Em um ambiente de constantes mudanças tecnológicas e sociais, mais do que se empenhar em cumprir a missão de servir à sociedade, tem se mostrado necessário desenvolver habilidades que possibilitem às instituições públicas criar soluções para os desafios que se impõem, tendo sempre como objetivo maior a melhoria dos serviços prestados ao cidadão.

 

Quando assumi a Direção do Foro, em abril de 2017, busquei me inteirar do que havia de mais inovador na administração do Poder Judiciário Federal. Com isso, conheci, na Seção Judiciária de São Paulo, o Programa de Gestão e Inovação (iNovaJusp), no qual me baseei para iniciar o Programa de Inovação da Seção Judiciária do Espírito Santo (Inoves) e visitei o seu Laboratório de Inovação.

 

Devido à importância do tema, em outubro/2017, os então diretor e vice-diretora do foro da Seção Judiciária de São Paulo, juiz federal, Paulo Cezar Neves Junior e juíza federal Luciana Ortiz Tavares Costa Zanoni, estiveram em Vitória para apresentarem o programa e ministrarem a “Oficina sobre Liderança e Governança da Cultura da Inovação”, para gestores da área administrativa.

 

Em novembro/2017, o professor Álvaro Gregório, referência em ‘Inovação no Setor Público’, com a criação, para o governo paulista do “ePoupatempo”, dentre outros projetos, e do “FaçaFácil”, para o governo do Espírito Santo, participou, por videoconferência, de palestra voltada aos servidores da área administrativa sobre o tema.

 

Em maio de 2018, a Justiça Federal do Espírito Santo deu um grande passo, seguindo tendência mundial, com a instalação do Laboratório de Inovação (iJusLab/ES). A partir do Laboratório, a Seção Judiciária deu início a um programa de gestão e inovação, assegurando a participação de juízes, servidores, e representantes de outros órgãos, resolvendo em conjunto problemas que afetam a todos.

 

Ainda em 2018, com a contratação da consultoria da empresa WeGov, especializada em inovação na administração pública, chegou a oportunidade de tirarmos proveito da cultura da inovação que tem se alastrado em diversos órgãos da administração, para criarmos soluções inovadoras que nos ajudem a dar conta de nossos principais desafios. E assim implantamos o programa HubJus de Inovação.

 

O HubJus é um programa de capacitação criado pela WeGov[1], para ajudar a Administração Pública a encontrar soluções para seus problemas e a fazer mais com menos recursos, utilizando-se de ferramentas simples que trazem muitos resultados. A capacitação é aberta a magistrados, servidores, estagiários e terceirizados que atuam na Justiça Federal, além de representantes de outras instituições públicas ou privadas que tenham interesse em participar — OAB, faculdades, bancos, conselhos, dentre outros.

 

Em setembro deste mesmo ano, na semana de lançamento do HubJus, tivemos ainda uma palestra sobre Inteligência Artificial, com o professor Heraldo Luís Silveira de Almeida, da UFRJ. Depois, após uma palestra de sensibilização e um evento de lançamento, o programa HubJus contou uma oficina de Design Thinking e com três módulos nos meses de setembro, outubro e novembro: Imersão, Ideação e Prototipação.

 

Foram trabalhados dez desafios indicados pelos gestores das varas e áreas administrativas, ou seja, os resultados obtidos são fruto da participação de cada uma das áreas que compõem a Seção Judiciária. No decorrer do programa, constatamos que inovação não se volta somente a avanços tecnológicos, mas às melhorias de processos de trabalho como um todo.

 

A regulamentação da prática de gestão veio com o Conselho Nacional de Justiça que criou uma reforma gerencial que buscou afastar-se da gestão burocrática para a gestão por resultados, transparência, controle social, capacitação dos servidores, gestão por desempenho, medidas que vieram a imprimir maior eficiência aos serviços prestados pelo Poder Judiciário.

 

Os programas de ação estão interligados e se desenvolvem através da gestão estratégica, da rede de governança e da inovação, com o Laboratório de Inovação. O laboratório de inovação da Justiça Federal é um espaço coletivo para discussão de problemas e desenvolvimento de ideias e soluções, através do uso de metodologias colaborativas e ferramentas de inovação.

 

A inovação não se restringe à tecnologia, mas a busca de desenvolvimento e talentos. Foi também excelente verificar como é enriquecedora a pesquisa mais profunda dos desafios a serem enfrentados. Como uma real noção do que se vê como um problema tem vários olhares e exige a participação de todos os envolvidos na sua elaboração, sejam os servidores, magistrados, terceirizados, sejam os usuários da justiça. A visão de cada um pode ser diferente, amplia o debate e aumenta a possibilidade de uma solução que efetivamente vá atingir os resultados necessários.

 

Foi, também, impressionante o nível e a variedade de talentos que temos nos quadros de servidores e juízes da Justiça Federal. É notória a existência de uma equipe muito dedicada e qualificada, pela própria excelência dos concursos públicos, mas ainda assim foi surpreendente a enorme capacidade de todos de tentarem organizar o trabalho de uma maneira completamente diferente do que estamos acostumados.

 

O que ficou claro é que a inovação não se trata da criação de um novo departamento, mas a “inovação é uma competência a ser adquirida”[2].

 

Tenho certeza de que a experiência que vivemos juntos aqui trouxe benefícios para todos, tanto na área pessoal, como no trabalho, principalmente no reconhecimento da importância de se ouvir a todos e de estar aberta a mudanças, quando se tem um desafio a ser enfrentado. E ainda, como soluções, aparentemente simples, podem fazer grande diferença.

 

Não podemos confundir a inovação com a busca de soluções rápidas, já que na verdade o pressuposto é uma visão de longo prazo para uma gestão eficiente. O Conselho Nacional de Justiça tem promovido a inserção de conceitos novos de gestão estratégica no Poder Judiciário Nacional, alinhados à proposta da reforma gerencial, inicialmente, no estabelecimento de metas segundo o diagnóstico da Justiça, que se seguiu a implementação de uma rede de governança que permite direta participação dos tribunais na formulação da estratégia.[3] Deste modo, com o objetivo de apurar o nível de maturidade em governança da Justiça Federal anualmente os gestores respondem a um questionário em que descrevem práticas de gestão, agrupadas em cinco dimensões (Estrutura e Funcionamento da Rede de Governança, Gestão de Pessoas e da Informação; Execução da Estratégia – Melhoria e Inovação[4]; Monitoramento e Avaliação dos Resultados; e Comunicação, Relacionamento Institucional e Transparência).

 

A inovação, por sua vez, será medida a partir da verificação das práticas de gestão de projetos adotadas pelos tribunais e seccionais, que garantam, entre outros requisitos: autonomia decisória aos gestores das iniciativas estratégicas; uso de metodologia padrão para gestão de iniciativas; implantação sistemática de novos serviços ou produtos e; disponibilidade orçamentária para as ações estratégias.

 

Além da questão da gestão de riscos e a questão orçamentária, não podemos esquecer que a Justiça não é uma empresa, mas um serviço público, e tem que estar voltada a todo momento para o jurisdicionado como o centro das atenções, sempre buscando a alternativa para melhorar o serviço público, a despeito da escassez dos recursos públicos.[5]

Todos os negócios existentes também estão sendo impactados pela era digital. Nem que seja uma pessoa envolvida, raramente encontramos uma empresa sem o setor voltado para a inovação, é a era das “startups”, que no Brasil não para de crescer, a exemplo das já noticiadas por região, como a Rapadura Valley, ou a Red Foot Community, assim como as voltadas para o mundo jurídico, como Finch Soluções, JusBrasil, Justto e Looplex, que demonstram coragem do desafio de empreender.[6]

 

Vivemos a inovação tecnológica dentro de nossas casas e vidas pessoais, existem aplicativos para vencer engarrafamentos com algoritmos avançados, séries e filmes sob demanda, em qualquer aparelho com internet em nossas casas. A Inteligência Artificial consegue facilmente identificar nossos perfis de consumidores e recomendam nossas preferências com boa taxa de acerto. Há aplicativos de transporte, podemos pedir comida via smartphone, ler qualquer jornal/revista do mundo com um clique de distância, a ponto de já estar consagrada a ideia de que no decorrer dos últimos anos, celulares, smartphones e tablets vêm se tornando “o controle remoto do mundo”.

 

Na China o reconhecimento facial se tornou uma realidade, estamos lidando com tecnologia avançada que permite identificar, por exemplo, infratores. Até que ponto estamos preparados para lidar e desenvolver essas novas tecnologias? E como poderá o Poder Judiciário se inserir na inovação tecnológica?

 

Na era das startups, que buscam parcerias e a criação de soluções para as diversas áreas, o campo do direito não poderia ficar longe disso, contudo, a inovação como filosofia e método ainda é vista com ceticismo pelos gestores, que não compreendem, ainda, a sua importância e pensam que os laboratórios de inovação não passam de um lugar bonito e colorido, mas que tem um custo alto.

 

Vivemos um momento histórico único, de quebra de paradigmas, devemos ter uma nova e disruptiva forma de olhar a administração da Justiça, além da preocupação com a redução de gastos, devido às regras de restrição orçamentária, o foco está na era do Big Data e de como poderemos gerir a justiça no futuro.

 

Um exemplo é o Projeto Victor, iniciado pelo STF em 2018. A funcionalidade do Projeto Victor é responsável pela identificação de processos de repercussão geral com um mecanismo que converte imagens em texto, o que melhora e dinamiza a avaliação dos processos. Tem esse nome em homenagem ao ex-Ministro do Supremo Tribunal Federal Victor Nunes Leal. Outro exemplo é o Projeto Corpus 927 que foi desenvolvido pela Enfam em parceria com o Superior Tribunal de Justiça. O objetivo é consolidar em um só local as decisões vinculantes do STF e do STJ, e a jurisprudência do STJ. Tem esse nome em referência ao artigo 927 do CPC.

 

Em suma, devemos pensar em como podemos ter as melhores pessoas, trabalhando em projetos realmente relevantes para a melhor prestação jurisdicional, pode ser através de um sistema virtual de movimentação processual novo, mais inteligente, com novas tecnologias, ou algo novo que nem sabemos ainda, mas precisamos ter a coragem para mudar as estruturas existentes e estarmos dispostos a criar o futuro.

 


[1] WeGov; site www.wegov.net.br “Somos um Espaço de Aprendizado que faz a inovação acontecer no setor público. Todas as nossas atividades são baseadas nas seguintes premissas: Empoderar os agentes públicos; Iluminar as boas ideias e práticas e; Aproximar as três esferas e os três poderes. Lideramos uma rede colaborativa de aprendizado e construção da inovação, no setor público. Sigam-me os bons!”

[2] Waengertner, Pedro.A Estratégica da Inovação Radical: como qualquer empresa pode crescer e lucrar aplicando os princípios das organizações do Vale do Sicílio, São Paulo: Editora Gente, 2018, p.18/19.

[3] Para maiores detalhes, ver A REFORMA GERENCIAL DE 1995 E O PODER JUDICIÁRIO FEDERAL, Trabalho apresentado para conclusão da disciplina “A Reforma Gerencial de 1995’, do Mestrado Profissional em Gestão e Políticas Públicas – MPGPP, por Luciana Ortiz Tavares Costa Zanoni, FGV, São Paulo, 2013. Também Portaria n.183, de 2013 do CNJ, Portarias n. 194, 195 e 198/2014.

[4] São fundamentos para essa dimensão os princípios da administração racional-burocrática, as metodologias de gestão de projetos e de processos da Justiça Federal, além dos ensinamentos de Peter Drucker quanto aos elementos que determinam a produtividade do trabalhador do conhecimento. Norteou essa dimensão a premissa de que a execução da estratégia deve se dar em consonância com duas orientações centrais: a busca pela melhoria de processos de trabalho e a inovação.

[5] A Emenda Constitucional n.95/2016, que veio a implementar o teto para os gastos públicos federais e que instituiu um novo regime fiscal para vigorar nos próximos 20 (vinte) anos, valendo, portanto, até 2036.

[6] Os precursores das lawtechs são americanos e têm entre seus expoentes o Ross, o advogado inteligente criado a partir da tecnologia de inteligência artificial Watson, da IBM.

O Ross pesquisa, em segundos, milhões de documentos regulatórios, processos na Justiça, notícias e legislação. Além de respostas completas, ainda sugere ações e alerta sobre decisões que podem impactar o caso – já foi ‘contratado’ por alguns escritórios americanos.

Já o Luminance é um robô treinado para auxiliar em processos de fusão e aquisição de negócios. O programa lê rapidamente centenas de páginas de documentos detalhados e complexos e identifica os pontos principais. Criado na Universidade de Cambridge, no Reino Unido, recebeu aporte de 3 milhões de dólares no fim de 2016. (Revista Exame, publicado em 26 de janeiro de 2017)

Posted by: In: Direito e Startups 25 jan 2019 0 comments

 

Por Marcílio Guedes Drummond

Sócio do Marcelo Tostes Advogados, responsável pela área de Direito das Startups

 

O assunto “proteção de dados” no Brasil está sendo tratado a todo vapor principalmente a partir da promulgação da Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais, a LGPD, ou Lei nº 13.709 de 14 de Agosto de 2018.

 

A verdade é que ler uma lei e fazer sua interpretação literal, para entender como ela trata da proteção de dados não é uma tarefa das mais difíceis, basta ser alfabetizado – com o perdão da sinceridade.

 

O dia 28 de janeiro é o Dia Internacional da Privacidade de Dados, desde 2006, por iniciativa do Conselho da Europa em busca de aumentar a consciência das pessoas quanto à importância da privacidade e promover a proteção dos dados pessoais. Esta data merece uma análise da LGPD além do óbvio.

 

Portanto o objetivo deste texto é ampliar a visão do leitor quanto aos contornos dessa nova legislação.

 

Trata-se de um regramento muito relevante, porque facilmente nota-se que várias empresas sabem quase tudo o que fazemos na internet, o que pesquisamos, quais são as nossas preferências, quem somos. Existem diversos modelos de negócio baseados no uso de dados. No entanto, torna-se difícil ao cidadão, sozinho, se livrar ou moldar esse monitoramento, sobretudo quando depende dos serviços prestados por estas empresas.

 

O real problema não é coletar os dados das pessoas, mas sim não dar transparência e não informar ao titular dos dados como exatamente será o uso do que está sendo coletado.

 

Neste contexto de LGPD, inicialmente acrescenta-se a edição da Medida Provisória nº 869, de 27 de dezembro de 2018, que estabelece a criação da Autoridade Nacional de Proteção de Dados – ANPD – órgão vinculado à Presidência da República.

 

A criação de ANPD é muito importante, porque a LGDP estabelece o que deve ser feito na nova sistemática de proteção de dados, mas não regula exatamente como fazer – função da ANPD.

 

Ao se falar em proteção de dados, é necessário entender que se está falando de dados de pessoas, sejam eles “online” (digitais) ou offline e que para a proteção de tais dados é fundamental a compreensão do fluxo de dados dentro das empresas e dos órgãos públicos (sim, não é apenas o empresariado que se deve submeter a esse regramento).

 

Inclusive, ressalta-se que também são afetados por essa normativa os partidos políticos, as igrejas, os sindicatos e também os escritórios de advocacia – sendo que um alerta vermelho deve ser ligado neste ponto, pois normalmente é mais fácil hackear o escritório de advocacia do que a empresa que ele assessora.

 

Nesse contexto, deve-se ter uma grande atenção sobre quando os dados são captados, por quê e para que são captados, por quanto tempo serão usados e como podem ser apagados.

 

É necessário também fazer um Data Mapping, para entender quais dados pessoais estão sendo tratados em determinado momento, quais as fontes dos dados, com quem são compartilhados, enfim, mapear toda a realidade destes dados.

 

Por isso, trata-se de uma temática multidisciplinar, que aborda segurança, tecnologia, jurídico e compliance. Definitivamente, se enquadrar a este novo regramento apenas por meio do jurídico é impossível.

 

É importante notar também que a LGPD é uma lei reputacional, o que significa que independentemente de um eventual temor das multas por seu descumprimento, o que estará em jogo perante o mercado – e que pode ser afetada na visão de clientes e parceiros – será a reputação da corporação quanto sua forma de tratar os dados pessoais.

 

Inclusive, os reflexos internos do tratamento dos dados vão desde os dados dos CEOs até os dos trabalhadores e colaboradores das camadas mais rasas da corporação, passando também pela definição dos níveis de acesso que cada colaborador terá aos dados externos tratados pela corporação.

 

Se pensarmos nos impactos da LGPD nas relações contratuais, deve-se atentar que, efetivamente, para o devido enquadramento jurídico à LGPD todos os contratos atuais precisarão serem revistos. Inclusive, mesmo as corporações que não atendam Pessoa Física devem se enquadrar a essa regulamentação da proteção de dados, porque elas possuem funcionários, que são Pessoas Físicas, portanto devem ter seus dados protegidos.

 

No contexto do recrutamento de pessoas, o jurídico e o setor de RH de uma corporação precisarão definir que tipo de informações são realmente necessárias de serem coletadas. Inclusive, neste ponto, levanta-se questionamentos: o que fazer com os currículos das pessoas que não foram contratadas? O que fazer com todos os dados coletados antes da vigência da lei?

 

Neste ponto, deve-se atentar para a amplitude das atividades consideradas abrangidas pela LGPD. O art. 5º, X, abarca “toda operação realizada com dados pessoais, como as que se referem a coleta, produção, recepção, classificação, utilização, acesso, reprodução, transmissão, distribuição, processamento, arquivamento, armazenamento,
eliminação, avaliação ou controle da informação, modificação, comunicação, transferência, difusão ou extração”.

 

Outro ponto relevante é o fluxo de responsabilidade solidária trazido pela LGPD, no art. 42, que tende a gerar um efeito cascata no mercado, no qual as corporações que tratarem os dados de forma correta terão a preferência para o fornecimento de bens e serviços.

 

Isso porque, nesse novo cenário de responsabilidade solidária a partir do compartilhamento dos dados, a exposição negativa, perante o mercado, pela violação de dados é a mesma tanto para a corporação que coletou e compartilhou os dados, quanto para a corporação que recebeu esses dados e não garantiu a segurança adequada deles.

 

Juridicamente, ambas são solidárias a partir do compartilhamento dos dados, sendo necessário, então, à corporação que queira se precaver, identificar detalhadamente todos os seus fornecedores que recebem dados, auditar os sistemas de segurança deles e exigir que tais sistemas internos se adaptem a requisitos mínimos de segurança. Não havendo a devida segurança destes dados, a tendência é mesmo o rompimento comercial e a procura de parceiros enquadrados a um compliance de dados.

 

E por falar em compartilhamento de dados, a Medida Provisória nº 869, de 27 de dezembro de 2018 criou, como Autoridade Reguladora, um órgão da administração pública direta, ligado à Presidência da República. Não se trata do modelo ideal, vez que o preferível seria a criação de uma autarquia, uma autoridade que tivesse autonomia e independência para fiscalizar, inclusive, o próprio poder público.

 

Isso porque, o poder público normalmente possui as bases de dados mais valiosas e atualizadas, já que o fornecimento e atualização de muitos deles são obrigatórios aos cidadãos. Porém, fica o questionamento acerca do nível e da qualidade de proteção dos dados pelo poder público, cujas obrigações nessa seara são menores do que as do setor privado e, ainda, sendo fiscalizado por um órgão vinculado à administração direta federal, portanto, sem independência e autonomia.

 

Neste contexto, inclusive, é fundamental que as empresas consigam firmar com o poder público cláusulas de confidencialidade, para proteger os dados não apenas dentro do contexto da LGPD, mas também da concorrência e de eventuais “haters”, como por exemplo os dados extraídos pelas empresas de transporte de aplicativo, como endereço, conta bancária e veículo dos motoristas.

 

Outro ponto relevante na análise é sobre o consentimento para o uso/ tratamento dos dados.

 

A verdade é que o consentimento (livre, inequívoco, informado, específico – e acrescento ainda, em destaque) é apenas uma dentre as várias formas de se legitimar o tratamento de dados pessoais.

 

De todo modo, quanto ao consentimento, a LGPD traz transparência e cria a necessidade das informações serem passadas, desde o início, de forma mais clara, com menos termos técnicos, com fácil visualização e gestão (elementos que se enquadram no que se chama de Privacy by Design – e que carrega informações muito mais amplas que aqui não será tratado de forma minuciosa).

 

E experiência demonstra que praticamente ninguém lê todos os termos de uso e políticas de privacidade. O problema é que no momento em que o usuário concorda, ele está dando seu consentimento que é justamente uma das bases legais para o processamento de dados, segundo a LGPD.

 

No entanto, como já dito, além do consentimento há várias outras formas que legitimam o uso de dados pessoais, tratadas pela LGDP como “exceções”, que dão uma ampla gama de possibilidades interpretativas.

 

Assim, mesmo sem o consentimento do titular dos dados, eles poderão ser utilizados, segundo o art. 7º e o ar. 11, para o cumprimento de obrigação legal/regulatória pelo controlador; para a execução de políticas públicas; para pesquisas por órgãos de pesquisas; para o exercício regular de direito, inclusive em processo judicial, administrativo ou arbitral; para a proteção da vida; para a proteção da saúde; e para a proteção do crédito (em claro atendimento ao lobby do setor financeiro).

 

Outro ponto de atenção é o da entrada em vigor da LGPD. Com a edição da MP 869/2018 esse prazo se estendeu para agosto de 2020 – sendo possível que se alargue ainda mais, pois há pressão empresarial nesse sentido.

 

Este tempo para adequação das corporações parece amplo, mas a experiência europeia de proteção de dados, pelo General Data Protection Regulation (GDPR), mostra que na verdade é menos do que o necessário.

 

Um exemplo deste argumento é a multa imposta ao Google pela autoridade francesa de proteção de dados, no valor de 50 milhões de euros, em janeiro de 2019. A data aqui é importante porque a GDPR entrou em vigor em maio de 2018, sendo que na Europa as corporações também tiveram o prazo de 24 meses da publicação da lei até a entrada em vigor, para se adequarem.

 

Ao que se vê, o prazo não foi suficiente, ainda mais se considerarmos que por lá há norma que regula a questão desde 1995 (a chamada “Diretiva Europeia de Proteção de Dados Pessoais”), enquanto que no Brasil o tema é ainda muito novo – apesar de alguns direitos anteriormente estabelecidos no Marco Civil da Internet (a Lei nº 12.965/2014).

 

No caso atual da multa aplicada ao Google, ela se motivou por falta de transparência quanto ao consentimento do uso de dados e pela falta de consentimento válido quanto à personalização de publicidade.

 

Especificamente no Brasil, nota-se que a grande maioria das corporações sequer possuem Termos de Uso e Política de Privacidade – e fala-se aqui, inclusive, de corporações gigantescas, com grande relevância -. Porém, pela força da nova lei, todas elas serão obrigadas a terem tais documentos – e se não tiverem podem ser punidas, inclusive com a aplicação de multas pesadas.

 

Por se falar em multa, a LGDP, estabelece no art. 52 a possibilidade de aplicação de penalidade de até 2% (dois) por cento do faturamento da empresa, podendo chegar até R$50.000.000,00 (cinquenta milhões de reais) por infração, multa essa não aplicável às Pessoas Jurídicas de Direito Público.

 

Quanto a este valor – que pode parecer assustador – uma simples análise econômica pode questionar a efetividade desta punição, haja vista que certamente haverá diversas situações nas quais “compensará” ser multado se comparado a alguns custos operacionais envolvidos e/ou a ganhos relacionados à negociação irregular de dados – sem contar que as multas administrativas poderão ser questionadas judicialmente, visando serem excluídas ou diminuídas.

 

Ocorre que, como já dito no início deste texto, a LGDP é uma lei reputacional, de modo que a multa, por incrível que pareça, pode não ser o maior prejuízo, ou o maior elemento desencorajador para as empresas.

 

Explico. A maior preocupação de um empresário é ter um negócio saudável, que funcione bem, que tenha clientes e dê lucro. A LGDP cria/reforça uma cultura das pessoas procurarem empresas que tratam melhor seus dados pessoais – e da mesma forma, outras corporações procurarão esse tipo de empresa.

 

No momento em que há um vazamento de dados, que pode expor os dados dos clientes e até mesmo expor sua própria empresa e empresas parceiras, o empresário corre o risco de perder seus clientes e seus melhores parceiros, o que pode ser um golpe fatal para o negócio.

 

Neste ponto, é importante mencionar que não há na LGPD diferenciação de tratamento e obrigações entre as grandes empresas e as médias e pequenas empresas quanto às adequações ao regramento de proteção de dados. Este apontamento é importante porque o enquadramento à LGPD é potencialmente custoso – por envolver necessidade de serviços conjuntos de segurança, tecnologia, jurídico e compliance – o que significará mais uma dificuldade significativa sobretudo aos pequenos negócios.

 

Temos no Brasil uma realidade na qual diversas empresas não possuem proteções jurídicas mínimas, como contratos personalizados e bem formulados com fornecedores e prestadores de serviço, enquadramentos às regras consumeristas, regimentos internos que reflitam uma cultura empresarial desejada, enquadramentos fiscais corretos ou ainda sem elementos básicos de governança e compliance. Nesse cenário fica o questionamento de como serão tratadas as determinações da LGPD para empresas que já ignoram determinações legais provenientes de normas anteriores, em outras temáticas jurídicas.

 

A conclusão que se chega ao analisar a LGDP além do óbvio é de que se trata de uma lei a ser construída no cotidiano das empresas e das pessoas, com uma multa aqui e outra ali para “servir de exemplo”, mas que com o tempo provavelmente ganhará força e relevância maior na qualidade reputacional das corporações.

 

O ideal é se adaptar desde já. O dia 28 de janeiro, Dia Internacional da Privacidade de Dados é um bom momento para se atentar ao óbvio e ao não óbvio desta temática.


 

Por Marcílio Guedes Drummond

Sócio –  Direito das Startups

 

O universo das Startups não para de crescer, em um contexto no qual os olhares se voltam cada vez mais para o empreendedorismo no Brasil. O baixo investimento inicial e o grande potencial de crescimento exponencial encantam empreendedores e investidores.

 

Nesse cenário, é importante voltar os olhares para as Spin-Offs, ou, no português contextualizado, nas empresas derivadas de outras empresas. Você também pode chamar Spin-Offs de cisões.

 

Para exemplificar de forma simples o que é um Spin-Off, pense em um personagem de seriado ou de um filme, que individualmente faz tanto sucesso a ponto de fazer sentido ter um seriado ou um filme próprio.

 

No mundo do empreendedorismo, isso pode ocorrer tanto quando uma empresa já consolidada resolve explorar mais um produto que não é o seu principal, por meio da criação de uma Startup derivada, como também com o êxito inesperado de algum dos produtos de uma Startup em teste, a ponto de se decidir separar este produto em uma nova empresa.

 

No caso de uma Spin-Off proveniente de uma Startup, ela pode ser importante porque ao se manter atrelado a uma startup “mãe” um produto de crescimento exponencial, essa vinculação pode começar a “segurar” o crescimento deste produto, bem como ofuscar o desenvolvimento de outros itens do portfólio.

 

A criação de um spin-off ocorre dentro de outra organização, que pode ser uma empresa já consolidada, uma Startup, uma instituição acadêmica ou um instituto de pesquisa.
Sobre as Spin-offs, é importante perceber que não se tratam de franquias, porque cria-se uma empresa diferente da empresa mãe ao passo que nas franquias há a replicação do modelo de negócios, com a permissão do uso da marca e distribuição dos produtos com o repasse de um percentual do faturamento como contraprestação. Há vários motivos para se criar um spin-off.

 

A retenção de talentos, por exemplo, pode ser feita por meio de bonificações com ações da nova empresa, alinhando o desempenho do pessoal com os resultados exclusivamente da empresa derivada.

 

A experimentação de novos nichos de negócios é também um bom motivo para se “spinoffar”, pois a criação de uma nova estrutura mais enxuta e dinâmica é positiva para que sejam experimentadas novas ideias e mercados, sem a rigidez tradicional das empresas maiores.

 

A utilização como estratégia financeira é também ponto positivo de uma spin-off, utilizando-a, por exemplo, para captação de novos recursos e parceiros, ou ainda como estratégia de um posicionamento como grupo empresarial mais inovador.

 

Não se pode esquecer ainda que a criação de uma nova empresa é também estratégia de proteção patrimonial para se ter riscos controlados na experimentação empreendedora.

 

Há vários casos de sucesso de Spin-Offs, como o travesseiro da NASA, os programas de fidelidade Smiles e Multiplus, respectivamente da Gol e Latam, dentro outros.
Todo esse cenário é um prato cheio para a atuação dos advogados corporativos, sejam os focados nas empresas tradicionais, sejam os advogados atuantes com startups e inovação em geral.

 

O auxílio jurídico empresarial nesse cenário relaciona-se a diversos campos, como elaboração de estratégias e identificação de oportunidades de monetização apresentadas por spin-offs (inclusive de IPOs, ou seja, de abertura de ações na Bolsa de Valores), atuação com as transações de reestruturação relacionadas a essa cisão (tanto antes como depois) para agregar os ativos e negócios relevantes à nova empresa/Startup, atenção aos tributos transfronteiriços entre a empresa mãe e a nova empresa, identificação de benefícios fiscais relacionados à spin-offs – enquanto startups -, interligar investidores ao novo negócio criado, aconselhar empreendedores quanto à melhor forma de transferências de ativos e funcionários, aconselhar empreendedores sobre deveres perante credores, inclusive na transferência de obrigações, preparar importantes acordos, como acordos de separação, contratos de serviços de transição e vários acordos entre empresas e pessoas que regem assuntos como propriedade intelectual, relação com colaboradores, bens imóveis, direitos de distribuição internacional, acordos de fabricação e fornecimento, entre outros, organizar e preparar documentos de governança, contendo medidas defensivas apropriadas, incluindo estatutos, cartas de comitê do conselho, código de conduta, tratamento de informações privilegiadas, tratamento de informações secretas, dentre diversas outras necessidades estruturais e estratégicas da empresa.

 

Portanto, o Spin-Off corporativo, apesar de não ser uma exclusividade do mundo das Startups são de grande valia especificamente para esse mundo da inovação, no qual Startups derivadas podem surgir com um risco controlado, em um cenário de maior flexibilidade de condução e maior espaço para o teste de ideias, para a criatividade e consequentemente, para a criação de negócios exponenciais de sucesso.


 

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